terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sexto movimento - preparando a primavera

Na Odisséia da liberação da rua para a festa de 18 de stembro, Sônia Souza nos informa que após passar por várias ruas de Dublin, o processo está andando bem.
Cansada de caminhadas e despachos, nossa Diretora jacarense foi fazer uma reza

Jacaré parabeniza a Sônia, suspende temporariamente os rins fritos na refeição matinal do João Guerreiro:Receita em Cozinha com a Anna - de Lisboa


Agora que os papéis já correram, corramos nós para organizar a festa.

Assim será a partir de amanhã. Quem viver verá!
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A bomba em Nagasaki e a rosa de Hiroshyma

Jacaré hoje não canta: chora com poeisa, imagens e sons
da triste lembranca que a humanidade tem da data de 9 de agosto de 1945
65º aniversário do bombardeio atômico da cidade por parte dos Estados Unidos.
para não esquecer e não permitir jamais: Nagasaki Archive


A rosa de Hiroshyma
Vinícius de Moraes


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Depois de ouvirmos a interpretação de Ney Matogrosso fica a obra de arte

A obra acima é de autoria de Francisco Rangel

A amiga,lá de Petrolina, contribui com uma poesia maravilhosa. Obrigado, Elisabet

Sexta-poesia na esteira de um jacaré atormentado

EXPLOSÕES
Murilo Mendes

A ode explode. O bode explode.
O Etna explode. O erre explode.
A mina explode. A mitra explode.
Tudo agora e amanhã explode.
Exceto a Bomba: o homem não pode.
O homem não pode. O homem não pode. O homem não pode

O homem pode:
Soltar a vida. Fuzilar a Bomba. Reinventar a ode.

Sobre Murilo Mendes, leia a revista ZUNÀI
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O amigo Carlinhos Cecconi, de São Paulo, vem com Drummond nos convidar para não esquecer e não permitir jamais: Nagasaki Archive


Estima-se que 74 mil pessoas morreram com a Bomba de Nagasaki, há 65 anos, nesse mesmo 9 de agosto, três dias depois da Bomba de Hiroshima. A de Hiroshima foi pior: estima-se em 140 mil pessoas.

A BOMBA
Carlos Drummond de Andrade

A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos
interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose,
de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro,
cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboreia a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bomba
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos
de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger
velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação
em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba
o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.
--
beijos n'alma!
na luta e na luz!

Carlinhos Cecconi
olacarlinhos@terra.com.br
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Tânia Cabral, do Tocantins, nos traz Fernando Pessoa:

"A Guerra"
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.

Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro

Uma excelente semana para todos!

Tânia

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João Guerreiro, diretor do Jacaré, mostra que dia nove aconteceu de novo em 1997 com a perda pela AIDS do querido Betinho:

Uma homenagem na voz/interpretação de Elis:


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco
Louco, o bêbado com chapéu coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarices
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

João Bosco/Aldir Blanc

sábado, 7 de agosto de 2010

Quinto movimento - preparando a primavera com poesia

Enquanto muçulmanos preparam o Ramadã, Jacaré vai por aí com sua viola num sábado de agosto de olho na festa da primavera, a busca de um título e de uma homenagem a fazer.

Do Ramadã, o sítio do Terra nos brindou com essa foto de todas as cores:

A viola, pegamos com Paulinho da Viola nas "coisas do mundo, minha nega" Foto do blogue Arco Iris Gerais
Hoje eu vim minha nega
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola onde eu gravei o teu nome (bis)
Venho do samba há tempo, nega
Venho parando por ai
Primeiro achei zé fuleiro que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Que está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se não dispunha de algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou de seu azar

Hoje eu vim, minha nega
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra pra não perder o valor (bis)

Depois encontrei seu bento, nega
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço (bis)

Por fim achei um corpo, nega
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro a causa da discussão
Foi apenas um pandeiro
Que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, fui-me embora
Ninguem compreenderia um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender (bis)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Quarto movimento - preparando a primavera com poesia

Andaram os papéis, Sônia Souza já os leva como o caderninho de Erasmo Carlos e João comeu pela manhã mais uma porção de rins de carneiro fritos.

Esmerando-se na produção de erros, Jacaré informou que a autora da poesia Alma Cigana era portuguesa, mas, com um Namastê, Karla nos informou que é brasileira e mora no Rio.

A poesia de hoje, esperando a festa de 18 de setembro - Primavera

Nada tem valor
Pierre Teilhard de Chardin

Nada tem valor
exceto a parte de você que está nos outros
e a parte dos outros que está em você.

Lá em cima
bem no alto
tudo é uma coisa só.

Flores e samba para o final de semana
Imagem da página do Sovaco de Cobra

A flor e o espinho
Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
É minha dor e os meus olhos rasos d'água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Terceiro movimento - preparando a primavera com poesia

Os papéis da tramitação da festa não andaram ainda e os rins foram para frigideira pela manhã.

Hoje é o dia de lembrança de Carmen Miranda contando 55 anos de sua morte, assim, Jacaré corrige a informação falada ontem de que hoje seria a dia de nascimento. A festa fica pois para 9 de fevereiro e a homenagem é com a Pequena Notável com flores amarelas, as que eram de sua preferência:
Foto obtida na página Blog de marlyjacobino

e uma poeisa cigana, de Potugal, para esperar a festa da primavera com uma dança também cigana ao fundo

Alma cigana
Karla Bardanza

Minha alma é cigana,
não pode amar,
e ama...
Sente o futuro,
lê no escuro,
foge,pula muros...
Alma em luz,
seduz com olhar,
entende da sorte,
e do destino,
mas é só desatino...
Cigana de encantos,
magia e sortilégio,
privilégio é entender
as cartas,os corpos,
o desejo...
Beijo a vida,
sou atrevida,
sorrio,conquisto,
resisto,insisto...
Acredite se quiser...
Sou perfume,sou mulher...
Sou cigana,ninguém me engana...
Estenda sua mão,vejo...
Vejo o teu futuro...
Leio o teu coração...
Sou cigana,
é assim que o povo
chega e me chama...
Sou assim,sou prazer...
Agora diga:
quem é você?

Quem quiser ler e saber mais sobre Karla Barzana pode visitá-la em sua página

Ler mais em Luso Poema Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Preparando a primavera com poesia - segundo movimento

Hoje, 4 de agosto, Sônia Souza leva a documentação preliminar necessária, que obteve com João Guerreiro, para início dos trâmites da festa.

Note-se que João teve no caté da manhã rins fritos,

amanhã é aniversário de Carmen Miranda.

e no segundo movimento de poesia, a poetiza protuguesa Sophia de Melo Breyner Andersen:


O poema

Sophia de Mello Breyner Andersen

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Mais poema de Sophia Breyner você encontra em no blog Blood Butterfly juntamente com a flor amarela aqui em baixo:

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Preparando a primavera com poesia - primeiro movimento

Jacaré prepara a festa de 18 de setembro, lendo poesia e cultivando flores.

O último sortilégio - Fernando Pessoa

"Já repeti o antigo encantamento,



E a grande Deusa aos olhos se negou.
Já repeti, nas pausas do amplo vento,
As orações cuja alma é um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
Só o vento volta onde estou toda e só,
E tudo dorme no confuso mundo.

"Outrora meu condão fadava, as sarças
E a minha evocação do solo erguia
Presenças concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via.
E as folhas da floresta eram lustrosas.

"Minha varinha, com que da vontade
Falava às existências essenciais,
Já não conhece a minha realidade.
Já, se o círculo traço, não há nada.
Murmura o vento alheio extintos ais,
E ao luar que sobe além dos matagais
Não sou mais do que os bosques ou a estrada.

"Já me falece o dom com que me amavam.
Já me não torno a forma e o fim da vida
A quantos que, buscando-os, me buscavam.
Já, praia, o mar dos braços não me inunda.
Nem já me vejo ao sol saudado ergUida,
Ou, em êxtase mágico perdida,
Ao luar, à boca da caverna funda.

"Já as sacras potências infernais,
Que, dormentes sem deuses nem destino,
À substância das coisas são iguais,
Não ouvem minha voz ou os nomes seus.
A música partiu-se do meu hino.
Já meu furor astral não é divino
Nem meu corpo pensado é já um deus.

"E as longínquas deidades do atro poço,
Que tantas vezes, pálida, evoquei
Com a raiva de amar em alvoroço,
lnevocadas hoje ante mim estão.
Como, sem que as amasse, eu as chamei,
Agora, que não amo, as tenho, e sei
Que meu vendido ser consumirão.

"Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tu, Lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza
Que tantas vezes tive por querer,
Ao menos meu ser findo dividi
­Meu ser essencial se perca em si,
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

"Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija,
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo;
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"

As imagens foram obtidas e podem ser visitadas em Publicar para compartilhar


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